A Alemanha tem andado nas bocas do mundo. Ora por causa do Euro2012, ora por causa da chanceler Angela Merkel, ora por causa da escassês de turistas alemães que se tem vindo a sentir no nosso país. Mas a principal razão é a dos mediuns. Sim, leram bem, os médiuns ou videntes que habitam naquelas terras. Bem, vidente apenas tiveram um, que infelizmente já faleceu. Mas tornou-se uma inspiração para muitos seguidores e aspirantes da "profissão". Falo do polvo Paul, esse mestre da adivinhação que acertou em todos os resultados da Alemanha no Mundial de Futebol de 2010. Reza a história que faleceu durante o sono em Outubro desse mesmo ano. Provavelmente mais cansado do que Cristiano Ronaldo, que adivinha os lances e depois de correr o campo de uma ponta a outra, não consegue concretizar nada de nada. Adiante. Parece que o polvo Paul tinha um primo, com um nome surpreendentemente original. Chama-se...Paul e encontra-se no Sea Life Porto. No entanto, parece que os laços genéticos que unem os dois exemplares não são assim tão idênticos. O primo parece falhar algumas previsões. As razões podem ser várias: É daltónico, tem a mania que é bruxo, gosta de gozar com os crentes ou simplesmente não passa de um polvo que divide o seu tempo entre abrir frascos, entrar e sair de caixas e passear por todos os cantos do aquário em busca de comida. A história morria aqui, não fosse o numero alarmante de animais que tentam a sua sorte no mundo esotérico, qual Maya lançando cartas de tarot. No entanto, parece que as artes da vidência não são para quem quer, mas sim para quem pode. Ainda na Alemanha, uma vaca tentou a sua sorte, ao prever a vitória de Portugal frente à Alemanha. Depois de lhe colocarem uns óculos graduados, de lhe fazerem testes da doença das vacas loucas e de lhe trocarem os baldes da ração, a dita vaca continuou a afirmar que assim seria: Portugal venceria a Alemanha. Resultado: além de vaca, era muito mentirosa. Existe ainda um elefante polaco que tentou a sua sorte com o Polónia /Grécia, onde dá a vitória à equipa da casa. Este andou mais perto, visto que o resultado deu no empate. E a lista continua com um furão e um porco da Ucrânia, os dois com o mesmo nome: Fred. Seja como for, fazia-nos cá falta um animal que previsse como vai ser o futuro do país daqui para a frente. Se pensarmos bem, já temos muitos no Governo, mas os únicos poderes adivinhatórios que possuem é o valor com que vão encher os bolsos à custa do povo. Temos uma Preguiça nas Finanças, um Coelho como Primeiro Ministro e temos um Cavaco (tipo de crustácio) como Presidente da Republica. Penso que ao olharmos para eles, nem precisamos de videntes. Percebemos logo que o futuro será negro. A única que ainda nos pode dar esperanças é uma galinha. Bem, pode não ser uma galinha, mas pelo menos tem Cristas no nome e prevê a metereologia. Dá pelo nome de Assunção Cristas.
Bem vindos!
Conta-me histórias é um blog onde vos mostro alguns dos meus trabalhos e onde podemos falar de tudo um pouco. Apresenta certos assuntos que acho relevantes e interessantes, sempre aberta a conselhos da vossa parte no sentido de o melhorar. Obrigado pela vossa visita. Fico à espera de muitas mais.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Escolas: O ABC da violência
A proposta de lei do Estatuto do Aluno, ontem revelada pelo Governo, tem sido motivo de grande controvérsia. Se não, vejamos:
-Ultrapassando o limite de faltas, o estudante chumba de imediato o ano e fica proibido de entrar na escola naquele ano escolar e nos dois seguintes.
-Professores e alunos vítimas de agressão passam a poder solicitar ao director a transferência de turma do agressor, desde que este tenha sido suspenso por mais de 8 dias.
- Punir os pais de alunos faltosos e indisciplinados, com coimas que vão até 16 euros no 1º ciclo; 56 € no 2º ciclo; 79 € no 3º ciclo e 68 € no secundário.
-As famílias de alunos incumpridores arriscam-se a perder apoios sociais e a escola tem de informar a comissão de protecção de crianças e jovens em risco ou o Ministério Público. -As penas de crimes contra professores são agravadas em um terço.-Captar imagens e sons na escola passa a ser proibido.
- Punir os pais de alunos faltosos e indisciplinados, com coimas que vão até 16 euros no 1º ciclo; 56 € no 2º ciclo; 79 € no 3º ciclo e 68 € no secundário.
-As famílias de alunos incumpridores arriscam-se a perder apoios sociais e a escola tem de informar a comissão de protecção de crianças e jovens em risco ou o Ministério Público. -As penas de crimes contra professores são agravadas em um terço.-Captar imagens e sons na escola passa a ser proibido.
Ora, vamos por partes:
-Se um aluno falta consecutivamente é porque não quer andar na escola, logo deve sair e deixar de ocupar espaço, tempo e recursos que serão preciosos para quem realmente quer estudar. No entanto, penso que dois anos de penalização será demasiado. Um ano deverá ser suficiente para avaliar se o aluno quer ou não voltar para a escola.
-Penso que a mudança de turma de um aluno que comete agressões a um professor ou a outro aluno não vai alterar em nada a segurança das vitimas. Pode até ser motivo de represálias. Além disso, é como se lhe dessem um balde de brasas e o mandassem fazer um inferno noutro lado. Talvez fosse melhor torná-lo um caso de policia sério com uma legislação objectiva e que penalizasse os agressores de forma a que não repetissem a proeza.
-Punir os pais com coimas que serão exigidas pelas escolas não me parece ser a melhor forma. A escola não é uma esquadra de policia, nem tão pouco o Ministério das Finanças. Deveria existir outro organismo mais competente para efectuar essas "multas". Por outro lado, com as dificuldades financeiras que a maioria atravessa, custa-me a crer que sejam pagas.
- A perda de apoios sociais em caso de alunos incumpridores será bem aplicada. Talvez assim certos pais estejam mais atentos ao comportamento dos filhos, nem que seja por medo de perder uns trocos.
- As penas de crimes contra professores não deveria ser a única a ser agravada. Do meu ponto de vista, as penas de crime contra qualquer outro ser humano deveria ser agravada e punida fortemente.
- Custa-me a crer que só agora pensem em proibir a gravação de sons ou imagens dentro das escolas. Mais vale tarde do que nunca.
-Se um aluno falta consecutivamente é porque não quer andar na escola, logo deve sair e deixar de ocupar espaço, tempo e recursos que serão preciosos para quem realmente quer estudar. No entanto, penso que dois anos de penalização será demasiado. Um ano deverá ser suficiente para avaliar se o aluno quer ou não voltar para a escola.
-Penso que a mudança de turma de um aluno que comete agressões a um professor ou a outro aluno não vai alterar em nada a segurança das vitimas. Pode até ser motivo de represálias. Além disso, é como se lhe dessem um balde de brasas e o mandassem fazer um inferno noutro lado. Talvez fosse melhor torná-lo um caso de policia sério com uma legislação objectiva e que penalizasse os agressores de forma a que não repetissem a proeza.
-Punir os pais com coimas que serão exigidas pelas escolas não me parece ser a melhor forma. A escola não é uma esquadra de policia, nem tão pouco o Ministério das Finanças. Deveria existir outro organismo mais competente para efectuar essas "multas". Por outro lado, com as dificuldades financeiras que a maioria atravessa, custa-me a crer que sejam pagas.
- A perda de apoios sociais em caso de alunos incumpridores será bem aplicada. Talvez assim certos pais estejam mais atentos ao comportamento dos filhos, nem que seja por medo de perder uns trocos.
- As penas de crimes contra professores não deveria ser a única a ser agravada. Do meu ponto de vista, as penas de crime contra qualquer outro ser humano deveria ser agravada e punida fortemente.
- Custa-me a crer que só agora pensem em proibir a gravação de sons ou imagens dentro das escolas. Mais vale tarde do que nunca.
O mais bizarro desta noticia é que a Fenprof admite impugnar a proposta de lei na Justiça por interferir no horário dos docentes. Não foram muito explícitos e talvez por isso, não entendo o que tem o horário dos docentes a ver com estas propostas. Seja como for, algo tem que ser feito. A criminalidade já não é um fenómeno de rua, mas sim das escolas. É lá que se aprende tudo, e cada vez mais, se aprende a violência gratuita e o desrespeito pelo semelhante. Por isso, deixo aqui um apelo aos senhores das leis: promovam o tempo em família. Nem tudo pode ser desculpado com a crise quando se trata do futuro de uma nação. Em vez de obrigarem os pais a trabalhar mais horas, obriguem-nos a passar mais tempo com os filhos. Promovam sessões de acompanhamento com pessoas habilitadas para que aproximem as famílias em vez de as despedaçarem em nome de uma crise que destrói lares todos os dias. Apenas semeando bons valores, poderemos colher um futuro promissor.
(Imagem retirada da Internet)
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Tempestade num copo de água
Tudo na vida tem um preço, mas existem muitas coisas que são difíceis de entender. A história que vos vou contar é real, mas roça o ridículo e mostra mais uma vez as descrepancias de valores que existem neste país. A filha de uma amiga minha, na brincadeira com um colega, deixou cair os óculos que por sua vez foram pisados. Resultado: lentes riscadas e armação torta. A mãe deslocou-se à escola para saber como poderia activar o seguro escolar para lhe serem atribuídos uns óculos novos. Nada mais correcto, visto que se pagamos tal seguro é para que nos possamos servir dele quando necessário. No primeiro contacto com a escola, tentaram dissuadi-la de o fazer, pois seria muito moroso e daria muito trabalho. Seria preferível que se tentasse endireitar a armação e quanto às lentes... bem, temos pena.
Claro que a minha amiga não ficou convencida com tais conselhos e insistiu para que lhe fosse reembolsado o valor dos óculos. Como não a conseguiram convencer a meter a viola no saco, prosseguiram com a abertura de um inquérito para que se apurasse o sucedido. Passadas duas semanas, chegaram à brilhante conclusão que tudo o que a menina tinha contado e que tinha inclusive sido presenciado por uma auxiliar da escola, era verídico. Finalmente poderiam fazer a participação ao seguro. Mas para isso, a minha amiga precisava de levar à escola não um, não dois, mas sim três orçamentos de óculos iguais aos que foram danificados. Mais uma semana se passou, entre mal entendidos na escola e visitas aos óculistas. Depois de várias tentativas lá chagaram a acordo, ficando desde logo avisada que teria de pagar os óculos do seu bolso e daí a algum tempo(?) seria reembolsada. Mais ou menos duas semanas. E assim se passou um mês.
Entretanto, a mesma criança, talvez em maré de azar, partiu acidentalmente um copo na cantina da escola. Logo foi alertada pala auxiliar presente que a sua mãe seria contactada para proceder ao pagamento do copo. Surpreendida com o insólito, a minha amiga dirigiu-se à escola para se certificar que a história que a filha contou era real. E foi então que foi informada de que receberia uma carta da escola para que procedesse ao pagamento de 50 cêntimos pelo dito copo.
O que fariam vocês nesta situação?
- Ignoravam a dita carta?
- Compravam um conjunto de copos para oferecer à escola?
- Pediam 3 orçamentos para o dito copo e depois de um mês entregavam os 50 cêntimos?
Compreendo que as escolas estejam a passar por dificuldades, visto que temos um (des)Governo que injecta milhões nos bancos, mas não investe um cêntimo na educação. Mas isto é ridículo. No inicio do ano lectivo pagamos tudo e mais alguma coisa: livros, seguros, inscrições, associação de pais, material escolar, cartões escolares... num ensino que se diz publico e a que todos têm direito. Durante o ano lectivo continuamos a pagar almoços, passeios, material escolar, equipamento desportivo...
Se entrarmos numa pastelaria e por acidente partirmos um copo, seria vergonhoso da parte do dono se nos exigisse que pagássemos. O copo que o dono da casa comprou. Mas numa escola pública, onde nos cobram tudo e mais alguma coisa e ainda por cima é paga com o dinheiro dos nossos impostos, já não é bem assim. Parece que para pagar reformas milionárias, para pagar as suites dos jogadores da selecção nacional, para injectar dinheiro nos bancos e nos negócios fraudulentos de certos senhores, ficamos sem condições de ter loiça suficiente nas cantinas das nossas escolas. A continuar assim, qualquer dia só se dá almoço às crianças se estas levarem os talheres, o prato e o copo de casa. A continuarmos assim, este país não chega a lugar nenhum.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
As crianças: o futuro da nação
Sinto saudades de poder ver o mundo através dos olhos de criança. A vida obriga-nos a crescer depressa demais e rouba-nos a inocência de outr'hora. Como era bom aquele tempo em que cuidavam de nós, onde tínhamos pressa de ser "grandes" e fazer o que nos apetecesse sem interferência dos adultos. Doce contradição que nos fazia pensar que o "não" era apenas um desafio e não uma ajuda para nos preparar para o futuro. Infelizmente, os "nãos" de hoje em dia são muito mais do que na década em que nasci. Seja por dificuldades financeiras, seja pelos perigos que se escondem na sociedade, seja porque um bando de "senhores bem vestidos" nos roubam a possibilidade de um futuro melhor, seja pelo que for. Ser criança nos dias de hoje é bem mais complicado. O progresso que deveria servir-nos, serve-se de nós para dividir uma sociedade cada vez mais envelhecida e desumana. No meu tempo saltávamos ao elástico, hoje os miúdos saltam da play-station para o computador; no meu tempo jogávamos à apanhada na rua, hoje não podem sair à rua sozinhos; no meu tempo jogávamos às escondidas, hoje em dia os miúdos escondem-se atrás de um computador, fazendo amigos virtuais que nem sempre são os mais aconselháveis. E quando finalmente chegamos a casa depois de um dia de trabalho a vontade de brincar de outros tempos, deu lugar a um cansaço triste de quem corre desgovernado rumo a nada. E os filhos, esses seres preciosos pelos quais lutamos e nos arrastamos dia após dia em busca de lhes proporcionar um futuro melhor, são ironicamente desprovidos de colo, de atenção. Recebem apenas um sorriso cansado e gasto. Não admira que se refugiem em amigos virtuais. Esses ao menos dizem piadas e estão sempre dispostos a falar com eles. Ainda assim, consideramos os nossos filhos uns afortunados pensando que ao menos não passam fome, ao menos têm um tecto, ao menos têm o que vestir, ao menos conseguimos dar os brinquedos que gostam, ao menos... Ao menos somos meros sobreviventes num mundo dominado pela ganancia e pelo poder, que enriquece uns poucos e priva os restantes de uma vida de qualidade. Ghandi disse que se o Homem apenas se servisse do que necessitava, todos teriam mais que suficiente para viverem bem. Infelizmente, o ser humano tornou-se ganancioso e mesquinho. Dou por mim a pensar como terá sido a infância desses senhores que roubam descaradamente, sem penalizações e sem perderem o sono. Com certeza que quando eram pequenos e lhes perguntavam o que queriam ser ao crescerem, não diziam que queriam fazer desfalques milionários e enriquecer à custa dos outros ou ser ministros para roubar o povo. O que foi que mudou?
Que factores influenciaram a mentalidade destes homens e mulheres para junto com a inocência, perderem a consciência? Como podem os senhores do poder dormir descansados quando existem famílias a passar dificuldades extremas apenas porque eles assim decidiram? Será que nem pensam nisso? Será que isso lhes roça o pensamento quando olham para os seus próprios filhos? Ou será que respiram de alivio por não serem eles a passar pelo mesmo? Seja como for, algo mudou na mente destes senhores. Penso que a ciência devia investigar este fenómeno, para mais tarde prevenir esta doença. Sempre me disseram para não ter pressa de crescer. Nunca imaginei que fossem talvez as palavras mais certas que me diriam. Ser crescido é uma seca. Ser criança, isso sim, é o melhor do mundo.
(Imagem retirada da Internet)
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Aventuras e desventuras de um poeta (7ª parte)
- Ora, queiram sentar-se os presentes. No decorrer de todo este julgamento, se levantou a hipótese dos textos em questão terem sido roubados pelo Sr. Jacinto Gomes, facto que não ficou provado neste tribunal, tratando-se apenas de uma suposição que mostra uma dúvida razoável, razão pela qual não poderá o Sr. Jacinto ser acusado formalmente de tal crime. Com respeito ao roubo de direitos de autor dos textos em questão, o tribunal viu como provado que tal facto ocorreu e portanto, cabe-me a mim considerar o réu culpado das acusações de plágio sobre as obras em questão. Sendo assim, condeno o réu a destruir os livros já impressos com este conteúdo e a indemnizar o Sr. Jacinto Gomes numa coima de 20 000 euros, bem como a cobrir as custas de todo este processo. Está encerrada a audiência!
Foi sem dúvida o dia mais feliz da minha vida. Abraçamo-nos com alegria e com o sentimento de dever cumprido, ao som dos desabafos de Brito, que gritava como um louco, dizendo que aquilo não ficava assim e que ia recorrer da sentença até à última instância. Mas não o fez, provavelmente aconselhado pelo seu advogado, que não tinha material para o fazer.
20 000 euros deu para mudar um pouco a minha vida. A primeira coisa que fiz foi enviar um cheque de 2 000 euros à minha mãe. Não era muito, visto ter vivido lá em casa tantos anos, mas era o que achava justo.
Depois, bem... Depois paguei um grande jantar a todos aqueles que me apoiaram e que não desistiram de mim.
Hoje já não trabalho na bomba de gasolina. Estou a tirar um curso de literatura e marketing e ao mesmo tempo trabalho com o Marco na editora. O meu trabalho consiste em avaliar trabalhos de escritores desconhecidos.
Existem muitos por aí e alguns bastante bons, apenas aguardando uma oportunidade.
O primeiro concelho que dou a todos é o de registarem os seus trabalhos antes de os entregar a quem quer que seja. Já diz o povo e com toda a sabedoria: “gato escaldado, de água fria tem medo.”
O segundo concelho é... Não desistam! Um dia, será o vosso dia.Fim
domingo, 27 de maio de 2012
Aventuras e desventuras de um poeta (6ª parte)
A cantiga do bandido era um pouco diferente, mas nem sequer imaginando o que o esperava, tal não era a prepotência.
- Meu caro, depois de analisar o material que me deixou, posso dizer-lhe que se enganou a respeito do seu amigo. Embora não seja tudo mau, já vi bem melhor.
- Então acha que não vale a pena ser editado?
- Temo que não. Ele escreve bem, mas isto está muito visto. As editoras, mais do que nunca, procuram temas fortes e inéditos.
Fui apanhado de surpresa, mas algo me disse que o facto de eu ter comentado que o meu amigo tinha dinheiro, podia ser a razão da nega de Brito. Decidi afastar-me, sem fazer alarido.
- Bem, confio na sua avaliação, tendo no entanto pena de ser eu o portador de tal notícia. Mas uma pessoa com o seu conhecimento, sabe com certeza do que fala e portanto, só me resta agradecer-lhe o tempo que me dispensou e comunicar-lhe o resultado.
- Ora essa! Disponha sempre. Um amigo da minha filha, é meu amigo também. E o Jacinto, tem escrito mais coisas?
- Pouco.
- Não desista. Sei que tem grande potencial.
Canalha! Aproveitador! Se houvesse justiça no mundo, não sairia impune.
Tinha muitas dúvidas de que o meu plano desse certo, mas não podia desistir. Com um pouco de sorte, ele voltaria a cair na tentação de roubar aqueles poemas também. Deixei-os lá, desta vez, propositadamente.
Antes de sair, perguntei à secretária como podia ter acesso às datas de lançamento dos livros. Deu-me o site da editora e disse que sempre que existisse um livro novo, poderia encontrar lá a data e o local de lançamento.
Dirigi-me a casa. Ao meter a mão ao bolso do casaco em busca da chave, encontrei algo que me fez entrar e sair logo de seguida. O cartão de Marco Ferreira, namorado de Filomena. Não custava tentar novamente. O não, seria sempre garantido.
A editora de Marco tinha um aspecto moderno e descontraído, nada parecida com a de Brito. Dirigi-me à recepcionista que me encaminhou até à sua sala.
- Como está, Jacinto? Entre, entre.
- Como está, Marco? Desculpe vir incomodá-lo...
- Ora essa! Fui eu que o convidei. E então, o que o traz por cá?
- Bem, como sabe, tenho umas poesias escritas que gostava de ver editadas. Não tenho tido sorte com as outras editoras que tenho procurado.
- Este é um meio dificíl, mas aqui, se a qualidade se justificar, por norma editamos.
- A minha maior dificuldade é o factor monetário.
- Bem, se o seu trabalho for bom ao ponto de merecer a nossa atenção, não precisa de se preocupar com isso.
Fiquei surpreendido com as palavras de Marco, não lhe querendo, no entanto, contar o que se tinha passado com Brito.
- A Filomena contou-me que mostrou os seus textos ao pai. O que disse ele?
- Gostou, mas faltou-me o dinheiro para editar.
- O velho Brito não muda. Conte-me lá, o que foi que lhe fez.
- O que me fez? Não entendo a pergunta.
- Deixe-me adivinhar! Disse-lhe que tinha que pagar um balúrdio para editar e você desistiu.
- Foi mais ou menos isso.
- E devolveu-lhe os seus originais?
Estava a ficar encurralado com as perguntas de Marco, sem perceber como sabia ele do ocorrido. Será que Brito lhe tinha contado algo?
- Não.
- Ah! Ah! Ah! A velha história de bandido. Quase que aposto que os seus trabalhos já estão por aí publicados, com autoria de outro.
Ao ver a minha cara de espanto, explicou:
- Eu caí na mesma história, há alguns anos atrás. O Brito roubou-me um livro que levei três anos a escrever. Nunca contei a Filomena. Da maneira como gosta do pai, iria sofrer demais. Mas ele começou a intrometer-se no nosso namoro e acabámos por nos separar. Nunca a esqueci e agora, com uma vida mais estabilizada, voltei com o intuito de casar com ela.
Ali percebi que não valia a pena continuar a omitir o que me acontecera.
- Comigo aconteceu o mesmo. Deixei-lhe os meus textos, disse-me que eram bons, mas a conta que me apresentou para publica-los era demasiado alta. Por isso desisti, até ver os meus poemas num livro assinado por ele. Agora só penso em vingar-me.
- E como pretende fazer isso? Não tem provas de que aquele era o seu trabalho, pois não?
- Não, mas depois disso, deixei-lhe lá mais uns textos e estou à espera que caia na mesma asneira. Se o fizer, tenho uma surpresa preparada para ele.
- Não, mas depois disso, deixei-lhe lá mais uns textos e estou à espera que caia na mesma asneira. Se o fizer, tenho uma surpresa preparada para ele.
- Isso é capaz de demorar algum tempo, ou de nem sequer voltar a acontecer.
- Sim, eu sei, mas não posso fazer mais nada. Entretanto vou tentando publicar os meus poemas noutros lados.
- Pois bem, congratulo-o por, ao menos estar a fazer algo. Eu fiquei num estado tal, que não tive reacção para vinganças. Aliás, a minha vingança foi ter vencido no meio editorial e voltar para a filha. Pois bem, vou analisar a sua obra e depois entro em contacto consigo.
- Muito obrigado, Marco.
Quando perdemos a confiança no ser humano, o nosso ego teima em não gostar de ninguém, mas Marco pareceu-me sincero.
Já tinham passado dois meses desde que tinha deixado os textos com Brito. Todos os dias visitava o site da editora em busca dos lançamentos. Finalmente parecia estar com sorte. No dia seguinte iria ser lançado um livro de sua autoria, num auditório ali perto. Quase nem dormi a imaginar a cara dele, na hora da vingança. Podia dar-se o caso de aquele não ser o meu trabalho, mas tinha que ter a certeza.
Finalmente chegou a hora. Arranjei-me o melhor que pude e dirigi-me ao auditório.
A sala estava cheia de gente. Pelos vistos, Brito tinha um vasto público. O que me deixou um pouco orgulhoso, se tivermos em conta que era o meu trabalho que aplaudiam.
Andei pela sala, bebendo um pouco de champanhe, – posto à disposição dos convidados – sem me dirigir à mesa onde Brito autografava os livros, evitando ser visto por ele. Consegui surripiar um, dei uma vista de olhos. Eram sem dúvida os meus poemas, mais uma vez. A soberba de Brito era tão grande, que pensava mesmo ser imune a qualquer castigo.
De repente, fui surpreendido por Marco, que me deu um toque no ombro. Fiquei um pouco assustado, pois não sabia se pretendia ou não denunciar-me, ou mesmo se já o tinha feito. Fez-me sinal para que o acompanhasse. Segui-o pelo meio da multidão até um canto da sala.
- Então, é hoje o dia da vingança?
- Sim. Constatei que afinal Brito não é tão inteligente como pensava. Voltou a publicar os meus textos, assinados por si.
- O velho não é inteligente, é esperto. Ou pelo menos, pensa que é. Apenas lhe quero dizer que li os seus textos e que estou disposto a editá-los.
- E quanto é que isso me vai custar?
- Nada. A única condição é que a editora receberá sessenta por cento das vendas. O lançamento é feito por nós, sem qualquer encargo da sua parte e não terá que adquirir qualquer exemplar. Isto prova, sem sombra de dúvidas, que o seu trabalho é muito bom e que tem pernas para andar, ainda que seja um autor desconhecido. O que me diz? Provavelmente a sua vingança é escusada.
- Nada. A única condição é que a editora receberá sessenta por cento das vendas. O lançamento é feito por nós, sem qualquer encargo da sua parte e não terá que adquirir qualquer exemplar. Isto prova, sem sombra de dúvidas, que o seu trabalho é muito bom e que tem pernas para andar, ainda que seja um autor desconhecido. O que me diz? Provavelmente a sua vingança é escusada.
- Desculpe Marco, mas não. A minha vingança, como lhe chama, tem como objectivo desmascarar este homem e evitar que outros passem pelo mesmo que eu passei. Pensava que o Marco, mais do que ninguém, entenderia isso. Se depois do que se passar aqui hoje, a sua proposta ainda se mantiver de pé, muito bem. Se não, tenho pena, mas não vou desistir do que me trouxe aqui.
- Compreendo. Muito bem, espero que tudo lhe corra pelo melhor.
Ao vê-lo afastar-se, percebi que estava a desperdiçar novamente a oportunidade de concretizar o meu sonho. Mas a minha condição de fazer justiça falava mais alto.
Depois de autografar uma centena de livros, Brito dirigiu-se a um pequeno palco, a fim de discursar sobre a obra e de agradecer a presença dos convidados. Era chegada a hora de concluir o meu plano.
Agradeceu a presença de todos, enalteceu-se falando da falsa inspiração que tivera ao escrever os poemas e deixou no ar a oportunidade de lhe serem feitas perguntas pelos presentes. Foi então que aproveitei a deixa.
- Sr. Brito, qual é a sensação de estar a ser aplaudido por um trabalho que não é seu?
Ao encarar comigo, mudou de cor, ficando branco como cal.
- Desculpe, meu rapaz, mas não entendi a pergunta.
- Pois eu acho que entendeu muito bem a minha pergunta.
Dirigi-me ao palco, encarando o público que me observava como se eu fosse um extraterrestre acabado de aterrar.
- Senhoras e senhores, este homem que aqui está, não é mais do que um impostor e estes poemas não são seus.
- Que ultraje! Como pode acusar-me de tal injúria? Espero que tenha provas do que diz, meu rapaz.
- Esteja descansado Sr. Brito. Desta vez fiz os trabalhos de casa e posso afirmar que estes poemas estão registados em meu nome, como autor. Esta é a verdade. Estes são os meus poemas.
- Não sei o que pretende com tamanho circo, mas isto não vai ficar assim. Vou processá-lo por difamação, provarei que as suas afirmações são falsas, em tribunal. A não ser que você não tenha dinheiro para um advogado. Nesse caso, resta-lhe apenas pedir desculpa a toda esta gente e acabar com as difamações, em busca de lucro fácil.
Foi nesse momento que percebi onde me tinha metido. Era certo que tinha posto toda a minha energia na vingança, sem ter pensado nas consequências.
Mas, o milagre aconteceu. Marco levantou-se, caminhou na direcção do palco e disse:
- Não se preocupe com isso. O meu advogado representará Jacinto, para provar o que diz.
Nesta altura Brito estava roxo de raiva. Marco sabia o seu segredo e, tal como eu, queria justiça. Saímos dali, deixando todos boquiabertos, sussurrando comentários. Mesmo que aquilo não desse em nada, já valia o esforço por ter visto Brito tão aflito. Marco ligou prontamente para o seu advogado e no dia seguinte tive uma reunião com ele.
- Sr. Jacinto, embora o Marco já me tenha posto ao corrente da situação, gostaria que me contasse a sua versão dos acontecimentos.
Contei toda a história sem ser interrompido, até à parte em que parti a montra da editora.
- Bem, – disse o advogado – isso pode ser mau para si. Existem testemunhas?
- Penso que não. Pelo menos nunca fui procurado por isso.
- De qualquer forma, se foi apresentada queixa na policia, e acredito que foi, o Sr. Brito pode alegar que você partiu o vidro e entrou, roubando os textos que diz serem seus.
- Mas eu não entrei lá, apenas parti a montra. E além disso, nessa altura ele ainda não tinha os segundos textos.
- Pois, mas você não tem provas disso.
- Nem ele tem provas de que fui eu que parti a montra.
- Estou apenas a dizer-lhe que isto pode vir a ser mencionado em tribunal e que você tem que ter um álibi consistente. Se eu fosse a si – e agora falo como seu amigo e não como seu advogado – mantinha a história, dizendo que fui ao cinema com os meus amigos. Acha que os seus amigos são pessoas para testemunharem por si?
- Acho que sim.
- Então ficamos assim. Naquela noite você foi ao cinema com os seus amigos e depois do filme, regressou a casa.
Claro que quando pedi ao Tó para ser minha testemunha, logo se prontificou a ajudar.
O tempo foi-se arrastando e a justiça tardava em chegar. Não que isto fosse uma novidade no nosso país.
O que me mantinha mais confiante no futuro era o facto de ter finalmente editado os meus poemas. Na noite do lançamento do livro estava tão feliz que o coração parecia não me caber no peito.
Como sabem, não tenho muitos amigos, por isso fiquei abismado quando vi tanta gente a querer um autógrafo de um anónimo. Tudo, claro está, proporcionado por Marco que, além de ter feito uma excelente publicidade ao livro, convidou toda a gente que conhecia para o evento.
A vida começava a sorrir finalmente.
Comecei a receber algum dinheiro pelas vendas. Claro que não fiquei rico, mas sabia bem receber aquele dinheiro, vindo de pessoas que apreciavam o que mais gosto de fazer.
Cada vez que havia uma sessão no tribunal, até as unhas dos pés se me eriçavam. E a última foi com certeza a pior de todas. O Tó tinha ido depor. Ele estava nervoso, mas eu ainda estava mais. Mentir nunca foi o meu forte e tinha medo que Tó fosse apanhado nalguma rasteira.
- Sr. António, é verdade que na noite de 30 de Outubro de 2009 o senhor foi ao cinema com o Sr. Jacinto e a sua namorada da altura, D. Marisa.
- É, sim.
- E que filme foram ver?
- Um filme de acção, mas não me recordo do título.
- Claro, já passou algum tempo. No entanto, estranho a sua resposta, tendo em conta que o Sr. Jacinto disse ter ido assistir a uma comédia.
- Bem, eu estive mais tempo a namorar do que...
- Não precisa de se justificar, Sr. António. Já todos perceberam onde quis chegar. Não tenho mais perguntas.
O juiz pediu um intervalo de uma hora para tomar a sua decisão.
Fomos os quatro, o advogado, Marco, Tó e eu, até ao café mais próximo do tribunal, fazer tempo.
Pensava que o testemunho de Tó podia ter posto tudo em causa, mas o advogado não via assim. Dizia que enquanto não existisse uma prova concreta do meu envolvimento no roubo dos textos, existia sempre uma dúvida razoável e portanto nada poderiam fazer contra mim.
Aquela era uma hora que mais parecia um século. Os meus nervos já se enervavam a eles próprios, tinha uma secura na garganta, como se a água do meu corpo estivesse a ser sugada e concentrada nas palmas das mãos, que transpiravam abundantemente.
Qual seria o veredicto do juiz? Será que finalmente se faria justiça ou será que tudo aquilo tinha sido uma grande perda de tempo?
(Continua)
(Imagem retirada da Internet)
sábado, 26 de maio de 2012
Aventuras e desventuras de um poeta (5ª parte)
Um livro pequeno com uma capa sugestiva e um título estranhamente familiar. Chamava-se “Coisas da Alma” e sem me preocupar com o nome do autor, abri-o para ler o primeiro texto. Sentia que nada naquelas palavras era estranho, até que dei por mim a recitar o poema, sem sequer precisar de o ler.
Nunca fui atingido por um raio, mas tenho quase a certeza que se sente o mesmo que senti, ao perceber que aquelas eram as minhas poesias, as mesmas que tinha levado à editora de Brito. As mesmas que, por desânimo e por esquecimento, nunca tinha recuperado. Quando virei a capa em busca do nome de autor, o calor da raiva subiu por mim até se alojar bem no alto do meu crânio, como se quisesse sair disparado. Manuel Sousa Brito.
Como podia ter sido tão estupido ao ponto de ser enganado daquela maneira? Como podia haver gente tão baixa no Mundo, ao ponto de me fazerem o que aquele homem me fizera?
Desesperado, tentei encontrar o Tó e a namorada, para lhes dizer que ia para casa. Não sabia bem que momento era aquele, mas ver um filme não era o que mais queria fazer. Esganar Brito, isso sim, era o que me apetecia naquele momento.
Andei muito, sem sequer me preocupar para onde me levavam os pés. Não sei se o meu subconsciente sabia o que fazia, pois fui direito à porta da editora. Tomado de raiva, peguei numa pedra e rebentei com a montra. O alarme disparou, acordando-me do transe psicológico em que estava e corri para casa, temendo ter sido visto por alguém. Assim que cheguei, corri para o quarto, tentando arranjar maneira de provar que aquelas eram as minhas obras, aquelas eram as minhas “Coisas da Alma”. Nem o título esle se importou em alterar. Tudo aquilo tresandava ao meu talento, mas assinado com o nome dele.
Não havia volta a dar, nunca poderia provar o contrário. Tinha que existir outra maneira de fazer aquele homem sem escrúpulos, pagar.
Dei voltas e mais voltas, pensei até em comprar uma arma, só para o assustar e fazê-lo confessar. Mas Filomena não merecia isso e eu podia acabar preso. Finalmente, perto das quatro da madrugada, tinha em mente um plano para o desmascarar. Cansado, mas entusiasmado com a ideia, consegui adormecer, sabendo que teria uns dias de árduo trabalho pela frente.
Passei dias e noites de volta de tudo o que tinha escrito, arranjando ainda tempo para escrever mais alguns poemas. Passadas duas semanas tinha tudo o que precisava para dar início à minha vingança. Era chegada a hora de lançar o isco e rezar para que Brito tropeçasse na sua própria casca de banana.
Em passo firme e decidido, sem deixar os meus amiguinhos do sótão entrarem em diálogo, dirigi-me à editora e pedi para falar com ele. Com a maior cara de pau do mundo, cumprimentou-me alegremente.
- Como está, Jacinto? Bons olhos o vejam! Devo dizer-lhe que fiquei muito desapontado por saber que o seu namoro com a minha filha, terminou.
- Bem, continuamos amigos. E como está Filomena?
-Lá anda, na vida dela. Pessoalmente não gosto muito do tipo com quem ela anda, mas há muito que deixei de poder fazer algo contra as escolhas da minha filha. Resta-me rezar para que seja feliz.
Quanto mais ouvia a sua voz, mais me apetecia apertar-lhe o lenço que tinha ao pescoço e enfiar-lhe o cachimbo no... Bem, adiante.
- Mas penso que não terá sido sobre Filomena que me tenha vindo falar, pois não?
- Não, na verdade venho cá por causa de um amigo. Sabe, tenho um amigo que escreve poemas, tal como eu. A única diferença entre nós é que ele tem dinheiro para as publicar. Por isso, lembrei-me de si. Acha que pode dar uma vista de olhos no seu trabalho?
- Claro, meu rapaz! Mande cá o seu amigo que depois logo se vê.
- Bem, ele pediu-me que o trouxesse em nome dele. Por isso, posso deixá-lo já.
- Sendo assim, não vejo inconveniente nenhum nisso. Este seu amigo já publicou alguma coisa?
- Não, é a primeira vez, tal como eu.
Agora tinha quase a certeza que Brito tinha ficado interessado.
- Muito bem. Pode ficar tranquilo, que eu vou ver o que se pode fazer pelo seu amigo.
- Muito obrigado, Sr. Brito. Este amigo é como se fosse um irmão para mim e por isso gostava que tudo desse certo.
- Bem, se ele tiver a qualidade que você tem, pode muito bem vingar.
- Não querendo menosprezar-me, ele é muito melhor. Digamos que tem mais experiência.
Saí dali aliviado por não ter que continuar a respirar o mesmo ar que ele, e com a nítida sensação de dever cumprido. Agora era esperar que mordesse o isco.
Saí dali aliviado por não ter que continuar a respirar o mesmo ar que ele, e com a nítida sensação de dever cumprido. Agora era esperar que mordesse o isco.
Claro que esperei mais do que queria. A ansiedade era o truque de Brito pra fazer com que cometessem erros, dos quais lhe provinha o lucro. Mas desta vez eu estava preparado para esperar, pois - continuando com os provérbios populares, “a vingança é um prato que se serve frio”.
Entretanto, fui mostrando à minha amiga depressão que também dela, tinha aprendido a defender-me. Comecei por criar uma rotina saudável, alimentando-me melhor e indo para a cama a horas decentes, saindo sempre que podia, para me divertir. O Tó e a minha mãe foram as pessoas que mais notaram a minha mudança, talvez mostrando assim que eram as pessoas que realmente se preocupavam comigo. O Tó, por me ver com melhor aspecto e a minha mãe por ver a comida a desaparecer do frigorífico.
Um dia, numa das nossas saídas nocturnas, encontrámos a Filomena e o namorado. Gostei imenso de a ver. Já não tinha buço e estava com um ar felicíssimo. Apresentou-me o namorado, que me pareceu ser um bom homem. Pelo menos, para dono de uma editora, não tinha as peneiras que o pai dela tinha. Depois de uma longa e animada conversa, entregou-me o seu cartão.
- Quando se decidir a publicar, não hesite em falar comigo. A Filomena fala muito sobre si e sendo ela tão boa pessoa, decerto que também o é. - Ao ouvido, sussurrou-me – Não sai nada ao pai.
Fiquei surpreso com o comentário, mas não dei importância.
Dei importância sim, ao cartão que me entregou. Seria aquela uma nova maneira de tentar editar um livro? Provavelmente, não.
Embora aquele homem aparentasse ser boa pessoa, “gato escaldado, de água fria tem medo” e nada me garantia que não me pudesse enganar ou pedir rios de dinheiro, em troca de uma publicação. Em todo o caso, não fazia mal guardar aquele contacto.
Em casa as coisas iam de mal a pior. A minha mãe, queixava-se pela falta de dinheiro e de ajuda para arrumar a casa. A minha avó, surda como era, tinha sempre a televisão em altos berros. O meu meio-irmão, quando não estava no computador ou a jogar play-station, apanhava-me fora de casa e mexia em tudo o que queria no meu quarto. À noite tudo isto era regado com a presença fantástica do meu padrasto e as suas piadinhas de mau gosto.
Precisava urgentemente de sair daquele manicómio. Mas não era fácil. O que ganhava na bomba de gasolina onde trabalhava, nem dava para mandar cantar um cego, quanto mais para morar sozinho.
E foi neste contexto que meti, mais uma vez, argolada. Foi à hora do jantar que, como sempre, começou a discussão. O meu padrasto tinha bebido uns copitos, coisa também normal e que lhe aguçava a língua.
- É da minha vista ou estás mais gordo? - Perguntou-me ele.
- É da sua vista. Estou na mesma.
- Não estás não. Estás mais gordo. Mas nem por isso trazes mais dinheiro para casa.
- O que é que quer dizer com isso?
- Quero dizer que a vida está má para todos e que isto aqui não é nenhuma pensão. A nossa sorte é que, sem contar com aquela feiosa que trouxeste cá a casa um dia destes, não trazes cá ninguém. Se não era ainda maior a despesa.
- Oh! Horácio, deixo o miúdo! - Interrompeu a minha mãe.
- O problema é mesmo esse! É que tu és responsável, porque ainda o tratas como se fosse um miúdo. Um marmanjão de trinta e cinco anos!
- Mas responsável de quê? - Perguntei eu, num tom exaltado.
- Responsável por tu não ires à tua vida!
- Muito bem, se é esse o vosso maior problema, eu saio hoje mesmo.
- Não sejas parvo, filho! E para onde irias?
- Se calhar vai ter com a feiosa, para fazerem uns feiinhos.
Algo de muito negro se apoderou do meu corpo, algo tão negro como carvão. O que era, não sei dizer, apenas sei que tinha a força de dez homens. Talvez fossem os anos que passei a ser humilhado por aquele ser desprezível, talvez fosse o facto de ter aprendido uma lição de vida, ou simplesmente tinha aprendido finalmente a defender-me e a dizer basta.
Levantei-me da mesa, e concentrei toda a minha energia no punho direito, acertando em cheio no nariz de Horácio. Depois, simplesmente peguei no blusão e saí, deixando a minha mãe a apanhar os cacos e o desprezível estatelado no chão.
Sabia que não podia voltar para casa. Mas não tinha para onde ir. Telefonei ao Tó. Fiquei em casa dele até ao fim daquele mês, e ter dinheiro para alugar um quarto.
Até tive alguma sorte, visto que a senhora que me alugou o quarto me lavava a roupa sem pedir mais por isso. Disse que eu lhe fazia lembrar um neto que tinha, mas penso que só fisicamente, pois não devia existir ninguém, tão azarado como eu, no mundo.
Com tanto a acontecer na minha vida já quase nem me lembrava de Brito, quando recebi o seu telefonema. Combinámos encontrar-nos na editora.
(Continua)
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