Bem vindos!

Conta-me histórias é um blog onde vos mostro alguns dos meus trabalhos e onde podemos falar de tudo um pouco. Apresenta certos assuntos que acho relevantes e interessantes, sempre aberta a conselhos da vossa parte no sentido de o melhorar. Obrigado pela vossa visita. Fico à espera de muitas mais.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O que estamos nós a criar?


Os filhos são uma coisa maravilhosa. Uma pequena parte de nós que depressa se torna o todo da nossa existência. Nem tudo são rosas na educação de um filho. Pelo contrário, cada vez é mais difícil fazer um bom trabalho, visto que não se apresentam com manual de instruções e o melhor que podemos fazer é investir num cem numero de tentativas e erros, rezando para que estejamos no caminho certo. Mas a tarefa complica-se ainda mais quando a sociedade apodrece a um ritmo alarmante e não ajuda muito no que diz respeito à educação. É difícil educar um filho sob o ponto de vista de amor ao próximo, quando os nossos filhos convivem diariamente com a violência gratuita nas escolas. A única solução é percorrermos uma linha muito estreita entre a defesa pessoal e o respeito pelo outro. Tarefa quase impossível quando se juntam crianças de 10 anos de idade com repetentes de 14, que ameaçam os mais novos, munidos do seu superior tamanho e por vezes com o recurso a armas que inexplicavelmente levam para as escolas. Entre roubos e ameaças, o tão falado bullying é tratado pela lei portuguesa como brincadeiras de crianças, que depressa descambará para situações como já se vivem na América, onde um aluno dispara uma arma sobre colegas e professores. De quem é a culpa? De todos. Pais, escola, Estado, sociedade em geral, que fechamos os olhos a esta realidade, encolhendo os ombros e tornando-nos em pessoas de fé, tal como a nossa Ministra da Agricultura que reza para que chova. Isto é, em vez de soluções concretas, fazemos uma dança da chuva como os índios e esperamos que os Deuses resolvam as nossas burradas. E que tal deixarmos de falar em exploração infantil e colocarmos os meninas e meninas que já deram provas mais que suficientes que não querem estudar, a trabalhar? Podem fazer serviço cívico a sério na escola. Lavar umas janelas, despejar uns caixotes, limpar umas carteira, enfim, trabalho de braços supervisionado por pessoal da escola, e que não lhes fazia mal nenhum. Mas tinha que ser de vários dias e não de umas horas. Provavelmente isto não funciona, porque os pais dos meninos que tivessem que o fazer, os mesmos que nunca metem os pés na escola nos dias das reuniões (nem noutro qualquer), não se importavam de faltar ao trabalho para irem à escola defender o filho que até roubou um telemóvel e deu uma tareia no colega.
Mas a culpa não é só dos alunos. Tudo está mal desde raiz. As próprias escolas não dão a resposta necessária na integração e educação dos miúdos. Um caso flagrante do que digo é o da professora de História e Geografia do meu filho. Ele está no 5º ano. Esta professora deu duas semanas de aulas quando o ano começou. Meteu baixa pelo resto do período. Foi substituída por outra professora da mesma área. Até aqui tudo bem. Qualquer pessoa pode ficar doente. A turma teve sorte, pois durante o resto do primeiro período teve aulas com a professora de substituição que provou que estava ali para ensinar. A percentagem de sucesso da turma foi de 90%. Além disso, fiquei surpresa por saber, que a maior sorte foi o facto de ter sido substituída por alguém da mesma disciplina. Caso contrário, podiam ter ficado com um professor de música ou de português, que passaria a aula a fazer tempo para o toque, sem dar a matéria necessária. No segundo período a sorte acabou. A professora inicial regressou e deu nada mais nada menos do que duas semanas de aulas. Depois... bem, depois meteu baixa. Falei com a directora de turma que me disse que nada podia fazer. A professora em questão há 3 anos consecutivos que faz a mesma coisa. Parece que a senhora faz parte da mobília e ninguém faz nada para a meter na ordem. Rematou dizendo: "Sabe, ela tem problemas...". Mas eu não concordo. Quem tem um problema, é a turma. Desde o dia 27 de Janeiro que a turma não tem aulas com a dita professora. Mas desta vez, sem uma professora de substituição de História e Geografia. Agora entre professores de musica, inglês, matemática quando têm sorte e não ficam no recreio por noventa minutos esperando pelas aulas seguintes, a matéria espera por alguém que a queira dar ou pela "problemática" professora docente. Quando pergunto à directora de turma, quem se irá responsabilizar pela negativa dos alunos, esta responde que na falta do professor, será atribuída uma "nota administrativa". Isto é, na ausência de ensino, os alunos não podem ser penalizados e é-lhes dado um "3", que obriga o aluno a transitar de ano. Podemos por isso ficar descansados, pois os alunos podem não saber onde fica o próprio país, não saber o que foi o 25 de Abril, não saber quem foram os protagonistas do descobrimento do Mundo, mas sem sombra de duvidas que passam de ano com uma nota limpa. Este é o panorama das escolas publicas portuguesas. Enquanto existem centenas de professores sem colocação, professores que têm que se deslocar para longe das famílias para poderem ensinar, professores que são convidados a sair do próprio país para trabalhar, outros, com "problemas" ou simplesmente previligiados, ocupam espaço, sem serem punidos.
Concordo que hoje estou a escrever demais, mas peço a vossa paciência para que continuem a ler o meu desabafo. Vou falar-vos agora das refeições escolares. O meu filho apenas almoça na escola dois dias por semana, mas provavelmente vai deixar de o fazer. Além do comer ser intragável, não existe supervisão nos almoços, e fica sempre mal almoçado. Este é outro problema de que muito se tem falado, mas sobre o qual ninguém faz nada. O ministério da educação tem investido em projectos contra a obesidade. Talvez por isso se coma tão mal nas escolas. Pode ser que assim emagreçam. Mas tenham atenção a uma coisa: existem cada vez mais crianças que apenas fazem uma refeição decente e essa, é o almoço na cantina escolar. Poupem onde quiserem, mas não na saúde e na educação das crianças. Elas são a herança que deixaremos aos nossos netos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Filhos desobedientes



Já há muito tempo que evito ao máximo ver telejornais, ler jornais ou procurar por algum tipo de informações sobre o Mundo. Mas por mais que evite, é impossível não me ver rodeada de atrocidades, de roubos, de violações, de crises e de todo um conjunto de pragas de uma sociedade que apodreceu sem se dar conta. Mas como foi que chegámos a isto? Como foi que criámos tudo para nos facilitar a vida, para agora nos agredirmos uns aos outros? Muitas vezes me pergunto, como talvez muitos de vós, se Deus existe, como pode deixar acontecer tanta maldade no Mundo? O que me leva a pôr em causa se ele existe mesmo, ou se por outro lado, simplesmente baixou os braços e se rendeu à maldade dos seus próprios filhos. Os dez mandamentos, são a prova viva de que somos filhos desobedientes, em constante necessidade de desafiar as leis dum pai que há muito deixámos de ouvir. Como qualquer filho imprudente, apenas nos lembramos dos pais ou dos seus conselhos, quando nos encontramos em aflição. Reflecti sobre isto e cheguei a uma conclusão muito simples: enquanto Deus criou um conjunto de regras (os dez mandamentos) para que vivêssemos em paz e harmonia uns com os outros, nós, os seus filhos, contrariamos estas regras, inventando provérbios e leis próprias que nos fazem parecer sábios, mas que não nos ajudam em nada. Senão vejamos:
1º mandamento - Amar a Deus sobre todas as coisas.
       - Amamos o carro, a casa, as jóias, o plasma, o clube do coração, as férias no estrangeiro...
2º mandamento - Não usar o nome de Deus em vão.
       - Deus nos livre que chova, Deus nos livre que o Sócrates volte ao poder, juro por Deus que não votei neste ou naquele, Deus queira que a gasolina não volte a aumentar, Deus queira que a Troika não nos mate à fome...
3º mandamento - Guardar domingos e festas.(No domingo e em outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar da missa, evitando as atividades e negócios que impeçam o culto a ser prestado a Deus, a alegria própria do dia do Senhor e o devido descanso da mente e do corpo.)
      - Cada vez existem mais pessoas a trabalhar aos Domingos. Os sábados deixaram de ser dias de folga.
4º mandamento - Honrar pai e mãe.
       - Tudo começou com D. Afonso Henriques que decidiu bater na mãe. A partir daí, foi o descalabro.
5º mandamento - Não matarás!
       - Este nem vou comentar...
6º mandamento - Não pecar contra a castidade. (Entre os pecados gravemente contrários a castidade é preciso citar a masturbação, a fornicação, a pornografia e as práticas homossexuais.)
        - Bem, e quando é que nos podemos divertir um pouco e já agora, porque não podemos amar de uma maneira diferente da considerada normal?
7º mandamento - Não roubar.
       - Este é difícil de cumprir, visto que as gerações que ainda não nasceram, já estão a ser roubadas.
8º mandamento - Não levantar falso testemunho. (O respeito à reputação e à honra das pessoas proíbe toda atitude ou palavra de maledicência ou calúnia. A mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar o próximo, que tem direito à verdade.)
        - Este está nos genes. Andamos a ser enganados à décadas e somos caluniados com o rotulo de "lixo".
9º mandamento - Não desejar a mulher do próximo.
       - Nalguns casos isto é fácil de cumprir. Especialmente se a mulher do próximo tiver bigode.
10º mandamento - Não cobiçar as coisas alheias. (proíbe a ambição desregrada, nascida da paixão imoderada das riquezas e de seu poder.)
       - "A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha."
Como podem ver, tudo temos feito para contrariar estas regras. Se os seus filhos agissem do mesmo modo, o que faria para os chamar à razão? Talvez os castigasse ou talvez fosse rendido pelo cansaço e esperasse que um dia tomassem finalmente juízo. Acreditando em Deus ou não, está nas nossas mãos o poder de mudar o Mundo.  

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Fumar ou não fumar... eis a proibição!


Não é com orgulho que digo que sou fumadora há vinte anos. De facto, tentei deixar de fumar inúmeras vezes, sem sucesso. Numa dessas vezes falei com o meu médico de família, para que me encaminhasse para as consultas de anti-tabagismo. O meu médico, homem prático e direto, dissuadiu-me, dizendo que tudo o que seja pensos, pastilhas e toda a parafernália de "milagres" para largar a dependência de fumar, apenas davam resultado por peso de consciência. Do seu ponto de vista, quem compra esses produtos, apenas deixa de fumar, porque após ter gasto o que tinha e o que não tinha no tratamento, não quer ponderar que o dinheiro foi mal gasto. Continuou dizendo que as consultas anti-tabagismo têm listas de espera de três meses e que a única solução para o problema é a força de vontade em largar algo que, além de prejudicial para a saúde, nos ataca em igual proporção os pulmões e a carteira. Só a titulo de curiosidade: o meu médico é fumador.
Muito se tem falado sobre uma nova lei sobre o tabaco. Querem proibir de se fumar em todos os locais públicos. Até li uma noticia no jornal em que diziam que a Coligação Belga contra o tabaco (???), defende que o preço do tabaco em Portugal é inferior ao que devia custar atendendo ao nível de vida do país.
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=1865935&tag=Lei do tabaco
O que é que os belgas têm a ver com isso é que não entendi, mas adiante.
Ouvi também dizer que a proibição deverá estender-se às portas dos estabelecimentos de restauração, que é provável que as famosas máquinas de tabaco deixem de existir nos cafés e restaurantes, passando a vender-se apenas nas tabacarias. Ora o que eu gostava de saber é simples: onde andam aqueles senhores que defenderam as "salas de chuto" para os toxicodependentes? Onde estão as vozes que se levantaram e passaram à prática no que diz respeito a seringas de borla, vendidas a toxicodependentes, para evitar o contágio, através de troca das mesmas? Será que os fumadores passarão a ter "salas de fumo" à disposição? Será que teremos mais consultas de borla nos centros de saúde, quando precisarmos de ajuda para deixar de fumar? Então, mas se queremos um país livre de fumadores, porque não fechar a tabaqueira e proibir o tabaco em Portugal Continental e Ilhas? É simples: o tabaco, é uma droga legalizada que enche os bolsos do Estado. Para quê toda a palhaçada de dísticos de fumadores e de não fumadores espalhados pelas pastelarias e restaurantes do país, que apenas fizeram com que quem tivesse dinheiro para colocar um potente extractor de fumos, mantivesse os clientes, fazendo com que outros, menos afortunados, vissem os seus clientes preferirem a porta ao lado, apenas porque podiam tomar um café fumando um belo cigarrinho? E agora, depois de todo o dinheiro investido, depois de casas fechadas à custa dessa lei, ...temos pena, mas será geral. Todos sabemos o mal que o tabaco faz à saúde. Não é necessário o senhor Diretor Geral de Saúde vir tratar-nos como filhos desobedientes que  precisam de aprender a lição, como se fumássemos por estupidez ou para desafiar um pai autoritário. Fumamos conscientes que faz mal e sai caro, mas não deixamos de o fazer, porque alguém nos diz isso. Se isso assim fosse, nunca teríamos começado a fumar.
Mas já que o senhor Diretor Geral de Saúde está tão preocupado com a saúde dos portugueses, deixo aqui algumas sugestões para melhorar a situação e para ganhar alguns trocos.
- Colocar pessoal credenciado e com formação a nível de atendimento ao público nos Hospitais e nos centros de saúde
- Marcar as consultas para a hora de atendimento, sem permitir que os pacientes esperem pela dita, duas e três horas depois do marcada.
- Substituir na hora, os médicos que desmarcam as consultas.
- Pagar bem e atempadamente a todo o pessoal médico e auxiliar, podendo em retorno exigir que desempenhem as suas funções como deve ser.
- Compartecipar os medicamentos de doenças crónicas na totalidade, permitindo assim que os utentes mantenham os postos de trabalho, contribuindo assim para o desenvolvimento do país.
- Cobrar à Tabaqueira um terço dos lucros, para desenvolver meios de ajuda no combate ao vicio do tabaco.
- Indemnizar os proprietários de restaurantes e cafés que investiram dinheiro na aquisição de extrações de fumo.
- Começar a dar o exemplo de cima e proibir todos os membros do Governo e dos partidos de fumarem nas instalações e imediações de locais de trabalho.
- Não mandar os professores emigrar em busca de uma vida melhor, dando antes incentivos em Portugal, para que formem mais e melhores médicos.
- Proibir todos os médicos que exercem funções em hospitais e centros de saúde públicos de terem a possibilidade de criarem clínicas particulares. (ou publico ou privado, agora escolham!)
- Inspecionar e expulsar as direcções dos hospitais que se demonstrem fraudulentas e que dão prejuízo ao Estado.
Oh Senhor Director Geral de Saúde, o senhor não tem coração! Então depois de nos tirarem os subsidios, os feriados, os dias de férias, ainda nos quer tirar o prazer de fumar um cigarrinho? Veja lá se pensa nos verdadeiros problemas do sistema de saúde em Portugal e se tem toma... para acabar com o que realmente está errado. Pegue lá no seu baldinho de brasas e vá fazer um inferno noutro lado, que o povo português está farto de falinhas mansas em prol da nossa saúde.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Irremediável



E lá venho eu com mais perguntas. Mas pouco ou mais nada tenho senão duvidas. O que fazer quando perdemos a confiança nas pessoas? Não falo em pessoas como humanidade, falo nas pessoas que nos rodeiam, que nos são próximas, aqueles em que devíamos confiar, aqueles que amamos. Como lidar com a desilusão do engano, do desengano de que temos ao nosso lado, não a pessoa que pensamos conhecer, mas sim um estranho que nos magoa e nos fere de morte? Como dar a volta por cima e lidar com a situação? Devemos perdoar e seguir em frente? Devemos dar tantas vezes o beneficio da duvida, quanto possível? Ou devemos cortar o mal pela raiz e rejeitar de vez essa pessoa? O perdoar e seguir em frente, não me parece boa ideia e sinceramente duvido que se consiga recuperar na totalidade, do dano causado. Aguentar até não poder mais, pode criar alguns mal entendidos, visto que, dependendo do tamanho do saco, o outro pode pensar que suportamos tudo até ao dia da explosão. Seremos depois apelidados de malucos e raramente levados a sério. Cortar relações definitivamente, pode ser radical demais, visto que errar é humano e ninguém está livre de o fazer. Graças a Deus, pois é com o erro que se aprende.
Continuo sem respostas. Mas consigo ter uma certeza: sempre que a confiança se quebrar, passe o tempo que passar, nunca mais será o mesmo. Esse episódio, por mais irrelevante que seja, será sempre lembrado, avisando a vitima de que o outro já falhou antes. Não é à toa que se diz que errar é humano, mas perdoar é divino.

domingo, 23 de outubro de 2011

Violência (de)mente


Finalmente saiu. Por alguns minutos, por algumas horas, nunca se sabe ao certo. A única certeza é a de uma paz podre e ansiosa, da qual não se sabe nada. Apenas que durante os minutos ou as horas da sua ausência, se pode deixar de suster a respiração, na esperança vã de suportar mais um dia.

Nem sempre foi assim. Existiu um tempo em que a sua partida, por breve que fosse, prometia abandono e desespero. Nesse tempo, o bater da porta implicava sempre uma despedida agonizante, um implorar ridículo para que ficasse, só mais um minuto, só mais uma hora, só mais uma noite. Sem saber, estava a depositar nas suas mãos o poder que me restava. Inocentemente pensava que a triste figura da chantagem emocional era uma arma minha, nunca desconfiando que era uma faca de dois gumes. Entrei no jogo, pensando possuir a fórmula mágica de prender alguém, apenas pela necessidade que sentia de o ter a meu lado, de o amar.

Muito se fala da violência doméstica e das marcas físicas deixadas por quem usa da força para subjugar o seu parceiro. Raramente se fala de um tipo de violência subtil e matreira que se instala quase sem se dar por isso, mas que deixa marcas invisíveis a olho nu. O poder da mente pode matar.

Começa com uma discussão, por um motivo ridículo e forçado. O predador fica sempre no controle da jogada, observando a presa, antecipando as suas reacções. Por norma, o predador tem sempre resposta e pergunta para tudo, visto que o seu principal objectivo é de baralhar e confundir a presa, forçando-a a sentir culpa, medo, rejeição e acima de tudo a exterminar a fraca auto estima que possui.

O que pretende? Nada. Apenas a satisfação de poder humilhar, massacrar e reduzir o seu alvo a uma condição longe da humana, somente porque pode. Ou porque simplesmente a presa se deixa apanhar, sem forças para se soltar de uma teia bem estruturada, que se torna o seu modo de vida. Todos os dias, sem excepção, a presa é confrontada com os seus erros, com os seus defeitos e mesmo as suas qualidades são escarniadas e ridicularizadas, lembrando constantemente que tudo o que é, não chega para ser alguém.

É assim, bem devagarinho que tudo começa. Esta realidade torna-se mais assustadora quando envolve as crias. Neste caso, a presa tem que se manter atida à sua condição, não porque quer, não porque não tem forças para se libertar, mas sim porque alguém que depende de si, entrou neste jogo sujo e desonesto.

Por isso, quando sai, já não é com mágoa que o vejo partir. Apenas me invade uma sensação de liberdade, que não dura, mas alivia. Para trás deixa uma vontade louca de, ao voltar, apenas encontrar as paredes desta casa, que não consigo aceitar como minha. Seria a minha vingança. Uma tolice que me encheria de orgulho, pois traria novas oportunidades de ser feliz.

Já o amei. Sei que já o amei. Numa altura em que ingenuamente pensava que o amor chegava. Não me recordo o que foi que me fez amá-lo tanto. Amá-lo ao ponto de lhe dar a chave, para que me roubasse o pouco que possuo. Talvez seja o facto de não saber amar.

A prisão desta relação acaba com a minha vida. A vontade de me levantar todas as manhãs é a mesma de me dirigir a uma forca. Não, não penso em suicídio. Ou melhor, já pensei, mas não encontro razão para o fazer. Os meus filhos relembram-me todos os dias, a razão de continuar viva. São a melhor ironia do meu destino, as âncoras que me mantem presa a esta realidade e ao mesmo tempo, as mãos que me salvam do abismo.

Acredito que nada acontece por acaso e que tudo o que se cruza no nosso caminho traz ensinamento. Mas ainda não sei que lição tirar de uma relação que apenas me causa sofrimento e que me suga a alma. Terei que fugir? Terei que ficar e cumprir a pena? Mas que raio de pena é esta que não teve direito a julgamento e que não informa sobre o crime cometido? Que crime cometi eu para ser torturada no anonimato, sem hipótese de defesa? Quem foi que nomeou este carrasco sem piedade, que espera que me erga, para logo me desferir mais um golpe certeiro, que deita por terra toda a minha identidade. Já não sei quem sou. Será que algum dia soube? Será que sou o que ele diz, ou sou o que a minha alma grita?

A minha alma. A minha essência. Aquilo que apenas pode ser revelado nas folhas de um qualquer papel, ou no teclado do computador. Nenhum ser humano poderá sentir ou ver a minha verdadeira essência. A desconfiança que existe no meu coração, não permite esse tido de abertura. Não permite que me mostre, sob pena de ficar no lugar de presa, mais uma vez. E assim se fecha a concha, assim se volta à origem. Aqui, neste sitio calado e solitário que nos permite falar com Deus, na esperança vã de uma qualquer resposta.

Gosto cada vez mais deste silêncio. Deste espaço no tempo que me permite ser apenas, sem medo de acusações ou de alguém eu aponte os meus defeitos. Gosto do que o isolamento da raça humana me dá. Pensando bem, é assustador gostar tanto de estar isolada. Mas olhando em redor, tirando as âncoras, tudo o resto me parece morto e sem graça.

Há quem diga que as qualidades estão lá, mas esses apenas me aliviam a dor em forma de pequenos balões de oxigénio que depressa se esgotam. Viveria melhor se o fizesse na ignorância, mas sei que mente quando me diz que não valho nada. Sei que apenas me quer ferir quando diz que não presto. Sei que usa a arma da infelicidade para me tentar tapar os olhos. E assim, torna-se mais doloroso, como se tivéssemos tido um acidente grave de viação e estivéssemos conscientes de tudo, o tempo todo.

Depois das suas investidas, resta pouco de mim. As dores da alma transformam-se em físicas, dificultando ainda mais o regresso à vida. Por sorte ou por pena, existem pequenos intervalos entre uma e outra. Nesses rasgos de tempo, volto a escrever, volto a sentir algo cá dentro que preciso desesperadamente de deitar cá para fora. Como se tivesse tomado um purgante, seguido de uma grave crise de verborreia.

E assim vão passando os minutos, as horas, os dias, os anos…

O relógio não pára, mas sinto que o tempo se esgota.


















terça-feira, 18 de outubro de 2011

Água, um bem essencial



Fui contactada telefonicamente por uma empresa, de seu nome Aquathin, que me fez um pequeno questionário sobre o consumo de água, em minha casa. Passada uma semana, ligaram de novo para me dizer que tinha sido "contemplada" com uma "Cleaning Ball"  ( bola mágica que cria uma onda energética, que quebra as combinações de hidrogénio da molécula da água em pequenos aglomerados e força-os a estarem activos, aumentando assim o movimento molecular. A acção da força aumenta a penetração nos tecidos, resultando numa lavagem que elimina a sujidade da roupa, sem uso de detergentes.)  Além deste prémio, iria receber a visita de um técnico que me faria um teste à água, para saber o que andamos nós a beber. Claro que quando a esmola é grande, o pobre desconfia e percebi que me tentavam vender algo. De qualquer modo, aceitei agendar a visita do tal técnico. Posso dizer-vos que fiquei realmente impressionada e estupefacta com a quantidade de sujidade que ingerimos na água canalizada. Rapidamente a minha torneira deixou de parecer uma simples torneira, para ser vista como uma saída de esgoto. Os testes realizados, onde não faltou a electrólise da água, foram muito elucidativos em relação à qualidade das águas canalizadas. Excesso de cloro, excesso de metais pesados, excesso de aditivos, excesso de porcaria, causadores de todo o tipo de doenças desde cancro, a pedra no rim, a entupimento das veias arteriais e outras. Enquanto fazia os vários testes, acompanhado por um cem numero de frasquinhos, comparava a água que saia da torneira com outra, filtrada por uma máquina que trazia consigo. Logo fiquei a saber que, tal como eu previra, se tratava de uma demonstração para uma posterior aquisição deste aparelho mágico. Realmente fiquei impressionada com o milagre da purificação da água, pois o paladar com que fica depois de filtrada, é o de uma água pura, de uma qualquer nascente do Norte do país. Mas o pior estava para vir. Acompanhando esta maravilha da tecnologia, vinha a conta, a módica quantia de 2500 euros, que poderiam ser repartidos em prestações suaves, por cinco anos.
Fiquei de dar resposta, na certeza porém de que não vou, com muita pena minha, adquirir. Mas, como sempre, fiquei a matutar sobre tudo isto. Continuo sem respostas, mas com algumas perguntas. Se a água que consumimos é assim de tão baixa qualidade, e se existe um modo de proporcionar água pura a toda a população, porque estará apenas ao alcance de quem tem poder de compra? Porque não incorporar um sistema destes em todas as casas? Porque sai caro? Pois bem, e se em vez de pagarmos saneamentos de custo elevado e que pelos vistos não saneiam nada, ou taxas que nem sabemos do que são, ou acertos mal explicados, pagássemos um pouco mais, mas por serviços de qualidade como este? Acho justo que se todos poluímos, todos deveríamos pagar por isso, mas em troca, deveríamos ser mais bem servidos.
 Dei uma vista de olhos no site da empresa. http://www.aquathin.pt/default.aspx?id=2
Foi então que descobri a frase que explica parte dos meus porquês. "O resultado - H2O Pura, a água mais pura disponível no mercado."
Isto não é para quem quer, mas sim para quem pode. Ela está disponivel no mercado, mas apenas para quem pode comprá-la. Quanto aos outros, bem podem morrer de cancro, pedra no rim, ou doenças vasculares. Sem dinheirinho, não há purificaçãozinha.
E depois, lá ficamos nós a maldizer a nossa condição económica e a condenarmo-nos por sermos maus pais, não podendo proporcionar uma melhor qualidade de vida aos nossos filhos, quando existe uma multinacional americana que até tem a resposta para a maioria das doenças que atormentam o Mundo. Basta filtrar a água. Ou por outra, basta ter dinheiro para filtrar a água.


domingo, 16 de outubro de 2011

Vamos de comboio ou de carro?


 Torna-se extremamente cansativo falar e ouvir sempre o mesmo, mas as noticias sobre dinheiro mal gasto em tempo de crise, não deixam de chegar aos ouvidos de todos nós. Muito bem fala o antigo ministro Bagão Félix quando diz que o sacrifício no corte de subsídios, não deveria ser apenas limitado aos funcionários públicos. Da minha parte não me importaria de fazer sacrifícios, não fosse a minha condição monetária, um sacrifício por si só. Mas como podem pedir mais, quando na pagina seguinte do jornal saem noticias como esta:  "Empresa da CP encomenda 13 carros de luxo para chefes".
O gasto de 237 120 euros em carros de alta cilindrada para os directores da CP, leva-me a crer que existe um poder concentrado, com o único objectivo de acabar com os mais desfavorecidos. Às vezes parece que existe um complou para gastar este mundo e o outro, enquanto tantos de nós passam pelas maiores dificuldades. Quando foi que o ser humano se deixou de importar com o resto do mundo, em seu proveito próprio? Será que esta sempre foi  uma caracteristica humana e que os restantes são seres deficientes, por terem consciência? Será que em vez de nos referirmos a uma pessoa caridosa e bondosa para com o seu semelhante, de humana, vamos ter que lhe passar a chamar deficiente?
"Aquela senhora é muito deficiente. Sempre a ajudar os mais necessitados."; "Aquele homem é um humano, sempre a roubar e a atraiçoar os pobres e desfavorecidos."
Pode ser que a moda pegue e que juntamente com o novo acordo ortográfico, se reinvente o significado de algumas palavras. Por exemplo, a palavra indignado pode perfeitamente ser o sinónimo de português.
Pois é, andamos todos muito indignados, enquanto os outros, os mesmos de sempre continuam a fazer grandes vidas, pouco se importando com o resto. Mas deixo uma pergunta no ar? De que lado se coloca você? Se tivesse oportunidade para viver em casas de luxo, com carros topo de gama, com férias pagas para todo o lado, com um ordenado chorudo ao fim do mês, com os seus filhos a terem aulas nos melhores colégios, recusava parte de tudo isto, para ajudar os mais desfavorecidos?
Posso com toda a certeza dizer que se a sua resposta é sim, esse deve ser o motivo pelo qual não tem nada hoje em dia.
No entanto se a sua resposta for não, se calhar tem que repensar a sua posição de indignado.

(imagens retiradas da Internet)